2026-05-11

Figura 1 - Gatos que deixam de comer durante vários dias podem desenvolver lipisode hepática, uma condição potencialmente grave mas tratável.
A lipidose hepática felina (também conhecida como “fígado gordo”) é uma das doenças hepatobiliares mais importantes em gatos e uma causa frequente de internamento. Tipicamente surge após um período de anorexia (o gato deixa de comer) — muitas vezes precipitado por stress, doença gastrointestinal, dor, pancreatite, colangite, diabetes mellitus ou outras condições subjacentes.
O aspeto mais crítico é que a lipidose hepática pode evoluir rapidamente para um estado grave, mas tem bom prognóstico quando é diagnosticada cedo e tratada de forma intensiva, sobretudo com suporte nutricional adequado.
Na lipidose hepática, ocorre acumulação excessiva de triglicéridos dentro dos hepatócitos (células do fígado). Em termos simples: quando o gato passa vários dias a ingerir pouca ou nenhuma energia, o organismo mobiliza gordura das reservas corporais; o fígado recebe grandes quantidades de ácidos gordos e pode ficar “sobrecarregado”, levando a disfunção hepática e colestase.
É particularmente relevante em gatos porque o metabolismo felino (e a sua adaptação ao jejum) favorece este tipo de resposta quando há anorexia prolongada, sobretudo em animais com excesso de peso.
A lipidose hepática é frequentemente descrita como uma das doenças hepáticas mais comuns em gatos em ambiente hospitalar/centros de referência. No entanto, a incidência e prevalência populacionais (na comunidade) são difíceis de estimar com precisão, porque:
Ainda assim, existe consenso de que é uma causa frequente de internamento, sobretudo associada a anorexia prolongada e doença sistémica subjacente.
Os sinais clínicos podem ser inespecíficos no início e agravar com o tempo. Os mais comuns incluem:
O diagnóstico é sempre uma combinação de história clínica (especialmente anorexia), exame físico e exames complementares. Em internamento, a abordagem tende a incluir:
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Figura 2 - A ecografia abdominal ajuda a avaliar alterações hepáticas e identificar doenças subjacentes associadas à lipidose hepática.
A confirmação pode ser feita por citologia (aspiração por agulha fina) e, em casos selecionados, por biópsia hepática. A decisão depende do estado do paciente, risco anestésico e necessidade de excluir diagnósticos diferenciais.

Figura 3- Muitos gatos necessitam de internamento para estabilização, fluidoterapia e eletrólitos e durante o suporte nutricional.
O tratamento é intensivo e, na maioria dos casos, requer internamento inicial para estabilização e início de suporte nutricional. Os pilares são:

Figura 4 - O suporte nutricional assistido é um dos fatores mais importantes para a recuperação de gatos com lipidose hepática.
A lipidose é frequentemente secundária. Controlar a doença desencadeante (p. ex., pancreatite, colangite, diabetes, doença intestinal) é essencial para evitar recidivas e para permitir que o gato retome ingestão voluntária.
Figura 5 - Estes vídeos ilustram a alimentação por sonda nasogástrica (NG) num gato internado no hospital Veterinário ANIMALcare. A alimentação por sonda nasogástrica é um recurso excelente e temporário para garantir que o felino receba nutrientes e hidratação quando recusa comer sozinho. Esta técnica é essencial para a recuperação de diferentes doenças quando os animais deixam de comer sozinhos / voluntariamente. A administração de água pela sonda permite a hidratação do animal e a manutenção da própria sonda (Figura A https://youtube.com/shorts/vTthaK9Rzyw?feature=share) a A administração de alimentos pela sonda permite o aporte energético e a hidratação do animal para a recuperação de diferentes doenças (Figura B https://youtube.com/shorts/LQsB22qS-7U?feature=share)
Com tratamento adequado (especialmente suporte nutricional consistente), muitos gatos têm boa taxa de recuperação. O prognóstico piora quando há:
A maioria dos casos exige semanas de suporte nutricional e acompanhamento, mas é uma condição onde a intervenção atempada faz uma diferença muito significativa.
A maioria dos gatos quando começa a comer mostra uma recuperação favorável para a doença. Nesta fase começa a ser possivel reduzir o suporte nutricional e acompanhamento doa hospital veterinário e o animal pode beneficiar de seguir a terapia na sua casa com apoio dos tutores.
Figura 6 - Este vídeo ilustra o gato da figura 5 a ser capaz de se alimentar voluntariamente no internado no hospital Veterinário ANIMALcare. A alimentação por sonda nasogástrica poderá deixar de ser necessária, sendo a hidratação e alimentação feita de formas mais simples. Pode ver aqui o caso do Chico a comer após o internamento.

Figura 7 - Com o diagnóstico precoce e tratamento adequado, gatos podem recuperar de uma lipidose hepática. A obesidade é um risco para diversas doenças, nomeadamente para a lipidose hepática felina.
A lipidose hepática afeta diretamente o bem-estar do gato por causar náusea, fraqueza, mal-estar e, por vezes, dor abdominal. Além disso, a anorexia em gatos tem um componente comportamental importante: stress ambiental, alterações na rotina, introdução de novos animais e hospitalização podem agravar a recusa alimentar.
Do ponto de vista de bem-estar, é essencial:
No Hospital Veterinário ANIMALcare, no Porto, a lipidose hepática é abordada como uma condição que frequentemente requer equipa multidisciplinar, meios complementares de diagnóstico e capacidade de internamento.
Consoante o caso, podemos apoiar com:
Se o seu gato estiver com anorexia, vómitos ou icterícia, pode procurar orientação em Urgências ou marcar avaliação em Consulta.
Sim. Em gatos, períodos de anorexia podem desencadear lipidose hepática, sobretudo em animais com excesso de peso ou com doença subjacente.
Qualquer recusa alimentar persistente deve ser valorizada. Como regra prática, um gato que não come (ou come muito pouco) por mais de 24–48 horas deve ser avaliado por um Médico Veterinário, especialmente se houver vómitos, apatia ou icterícia.
Não. A icterícia é um sinal de colestase/hiperbilirrubinémia e pode ter várias causas (hepáticas, biliares, pancreáticas ou hemolíticas). A lipidose é uma causa comum, mas exige confirmação e investigação da causa primária.
Não necessariamente. Muitas vezes é uma medida precoce e estratégica para garantir nutrição consistente, reduzir stress (menos “forçar” comida) e melhorar o prognóstico.
Pode demorar várias semanas. Muitos gatos precisam de alimentação assistida e acompanhamento até retomarem ingestão voluntária consistente e normalização progressiva de parâmetros hepáticos.
A prevenção passa por não ignorar anorexia em gatos, evitar dietas restritivas sem acompanhamento, gerir stress ambiental e tratar precocemente doenças que reduzam o apetite.
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