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Convulsões em cães e gatos: o que saber como reconhecer e quando procurar ajuda veterinária

Convulsões em cães e gatos: o que saber como reconhecer e quando procurar ajuda veterinária

2026-06-07

Convulsões em cães e gatos: reconhecer, atuar e tratar (perspetiva veterinária)

As convulsões são um dos problemas neurológicos mais frequentes e preocupantes em cães e gatos. Uma crise convulsiva — caracterizada por descargas elétricas anormais no cérebro — é um momento aterrador para tutores. Porém, compreender o que está a acontecer, como agir durante a crise e quando procurar ajuda faz toda a diferença no prognóstico e bem-estar do seu animal.

No Hospital Veterinário ANIMALcare (Porto/Matosinhos), avaliamos e acompanhamos regularmente cães e gatos com suspeita ou diagnóstico de epilepsia. Aqui explicamos o que são convulsões, como reconhecê-las, o que fazer e qual é o melhor caminho diagnóstico e terapêutico.

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O que é uma convulsão em cães e gatos? (Definição clínica)

As convulsões em animais de companhia assustam os tutores de cães e gatos que não sabem o que são e como devem atuar. Esta situação é particularmente preocupante e assustadaora na primeira vez que os tutores visualização esta situação.Neste contexto é importante saber que uma convulsão é um episódio de atividade neural excessiva e desorganizada no cérebro, resultando em:

  • Movimentos musculares involuntários — podem ser rítmicos (clónicos), rígidos (tónicos) ou uma combinação (tónico-clónico).
  • Alterações sensoriais e comportamentais — confusão, medo, desorientação.
  • Perda de consciência — em muitos casos, o animal colapsa e não responde.

É importante diferenciar uma convulsão de outros comportamentos (ex.: tremores, espasmos isolados, comportamentos compulsivos), pois o diagnóstico e tratamento são muito diferentes.

Figura 1 - As convulsões em animais de companhia assustam os tutores de cães e gatos que não sabem o que são e como devem atuar. Esta situação é particularmente preocupante na primeira vez que os tutores visualização esta situação. Nas situações seguintes os tutores já estão informados e alertas para estas situações e sabem o que fazer 

Mantenha a calma perante uma convulsão do seu cão ou gato, proteja-o de possiveis lesões secundárias que possam ocorrer por trauma na área onde o animal está a ter a convulsão e siga as orientações do seu médico veterinário dadas em consultas anteriores. Caso seja a primeira vez que observa esta situação siga as orientações deste artigo e tente gravar o episódio para uma fácil descrição da situação.

Cães vs gatos: diferenças importantes em quadros de convulsões

Cães

Em cães, a epilepsia idiopática (convulsões recorrentes sem causa identificável) é comum, especialmente em certas raças (ex.: Border Collie, Beagle, Pastor Alemão). A idade típica de início é 1–5 anos.

Gatos

Em gatos, as convulsões são menos comuns que em cães e, quando ocorrem, é mais provável existir uma causa secundária identificável (ex.: traumatismo, toxina, doença renal, hipertensão). Epilepsia idiopática em gatos é rara.

Em conclusão algumas raças de cães apresentam uma predisposição para a ocoorrência de epilépsia, é frequente a causa não ser identificável. As diferenças genéticas entre raças podem justificar as sua maior frequência entre algumas raças. Nos gatos a epilécia é por norma secundária a outras patologias. Esta situação pode acontecer também em cães.

 

algumas raças de cães apresentam uma predisposição para a ocoorrência de epilépsia, é frequente a causa não ser identificável.

Figura 2 - Algumas raças de cães apresentam uma predisposição para a ocoorrência de epilépsia, é frequente a causa não ser identificável. 

Em gatos as convulsões são menos frequentes que em cães e, quando ocorrem são geralmente secundárias a outras doenças

Figura 3 - Em gatos as convulsões são menos frequentes que em cães e, quando ocorrem são geralmente secundárias a outras doenças 

Principais causas de convulsões em cães e gatos

Epilepsia idiopática (primária)

  • Causa genética ou funcional, sem lesão estrutural no cérebro.
  • Mais frequente em cães (especialmente certos grupos de raça).
  • Rara em gatos.

Lesões cerebrais estruturais

  • Tumores cerebrais (gliomas, meningiomas) — mais comuns em cães idosos.
  • Infeções: meningite, encefalite viral ou bacteriana.
  • Traumatismo craniano: acidentes, quedas, ferimentos.
  • Malformações congénitas: hidrocefalia, malformação de Arnold-Chiari.
  • Acidente vascular cerebral (AVC): mais comum em gatos hipertensos.

Distúrbios metabólicos e sistémicos

  • Hipoglicemia — queda rápida de açúcar no sangue (cães muito jovens, pequenos, diabéticos).
  • Encefalopatia hepática — insuficiência hepática grave com alteração do metabolismo de amónia.
  • Encefalopatia urética — doença renal avançada.
  • Alterações eletrolíticas — hiponatremia, hipocalcemia, desequilíbrios marcados.

Intoxicações

  • Medicamentos (sobredose, reações adversas).
  • Pesticidas, produtos químicos, chumbo.
  • Alimentos tóxicos (chocolate, xilitol - adoçante natural encontrado nas fibras de muitos vegetais, uvas/passas).
  • Micotoxinas (fungos em alimentos).

A identificação precisa da causa é fundamental, pois determina o tratamento e o prognóstico.

Reconhecer as fases de uma convulsão em animais de companha

As convulsões ocorrem em 3 fases distintas. Reconhecê-las ajuda a descrever melhor ao veterinário e, muitas vezes, permite prever quando a crise ocorrerá.

1) Aura (pré-ictal) — alguns minutos a horas antes

  • Animal está nervoso, assustado, inquieto, procura esconder-se.
  • Pode estar excessivamente adesivado ao tutor ou isolado.
  • Nem todos os animais apresentam a fase de aura — muitas crises ocorrem sem aviso.

2) Ictal — a crise propriamente dita

  • Queda / colapso repentino.
  • Rigidez ou movimentos espasmódicos — os membros podem fazer "pedaladas", o corpo pode curvar-se ou ficar completamente rígido.
  • Salivação excessiva, espuma na boca.
  • Incontinência urinária e/ou fecal (frequente durante a crise).
  • Movimentos oculares rápidos (nistagmo).
  • Vocalização involuntária (gemidos, latidos, miados).
  • Duração típica: 30 segundos a 2–3 minutos.

3) Pós-ictal — após a crise (minutos a horas)

  • Confusão e desorientação — o animal pode estar "perdido".
  • Cegueira transitória — pode bater nas paredes ou móveis (mais comum em gatos).
  • Fadiga extrema — pode dormir prolongadamente.
  • Comportamento anómalo — pode estar assustado, agressivo ou excessivamente carinhoso.

O que fazer durante uma convulsão até contactar o seu veterinário? (Maneio seguro)

Durante a crise

  • Mantenha-se calmo. O stress do tutor pode amplificar a ansiedade do animal.
  • Crie espaço seguro: afaste móveis, almofadas, escadas ou qualquer objeto que possa ferir o animal.
  • NÃO coloque a mão na boca do animal — é um mito que o animal "engole a língua"; ele pode, porém, morder-o acidentalmente.
  • Mantenha luz e ruído reduzidos.
  • REGISTE O TEMPO DE DURAÇÃO — é informação clínica crucial.
  • Se a crise durar mais de 5 minutos, é emergência; contacte Urgências imediatamente.

Após a crise

  • Deixe o animal recuperar num local calmo e escuro.
  • Ofereça água em pequenas quantidades assim que o animal estiver suficientemente lúcido.
  • Alimento leve pode ser oferecido após recuperação completa, se houver interesse.
  • Documente detalhes:
    • Data, hora exata e duração da crise
    • Padrão de movimentos (qual o lado afetado, corpo inteiro, apenas membros?)
    • Perdeu consciência? Por quanto tempo?
    • Existiu incontinência? Salivação?
    • Qual a duração do período pós-ictal
    • Comportamento antes da crise (houve aura?)
  • Procure avaliação veterinária urgente — mesmo que a crise tenha terminado.

Quando procurar Urgência Veterinária? (Critérios de emergência)

Procure Urgências imediatamente se:

  • Crise dura mais de 5 minutos (status epilepticus — risco de morte ou dano cerebral).
  • Múltiplas crises em curto espaço de tempo (cluster) — o animal não recupera totalmente entre elas.
  • Primeira convulsão do animal — necessário investigação urgente de causas potencialmente graves.
  • Convulsões acompanhadas de febre, vómitos, dor de cabeça (inclinação, sensibilidade), rigidez cervical — suspeita de meningite/encefalite.
  • Crise seguida de paralisia ou fraqueza marcada.
  • Animal estava inconsciente e não está acordando horas após a crise.

Diagnóstico das convulsões: abordagem veterinária

O diagnóstico é um processo de investigação estruturada que começa na história clínica detalhada.

1) História clínica e exame físico/neurológico completo

  • O seu médico Veterinário através de um bom exam eclínico poder fazer um despiste inicial. Perguntas como:
  • Quando começaram as crises? Qual a frequência?
  • Padrão das crises (sempre iguais?)
  • Medicações, alergias, contacto com toxinas.
  • E um exame neurológico detalhado para tentar localizar a lesão (cérebro vs medula vs periférica), fazem parte da primeria abordagem.

2) Exames complementares de primeira linha

  • Análise de sangue completa: glicose (existe hipoglicemia?), eletrólitos (Na, K, Ca), função hepática (AST, ALT, bilirrubina), função renal (ureia, creatinina), albumina.
  • Análise de urina — avaliar concentração (existe polidipsia?) e presença de proteína/sangue.

3) Exames de imagem (quando indicado)

  • Tomografia computadorizada (TC) do crânio  ou a Ressonância magnética (RM) do crânio  são exames disponível que podem distinguer situações de tumores, traumatismos, ou lesões mais sensíveis do cérebro como inflamação e edema.

No Hospital Veterinário ANIMALcare, temos acesso a meios de imagiologia e podemos articular com especialistas em neurologia conforme necessário. Consulte Serviços Veterinários para saber mais.

4) Exames avançados (em casos selecionados)

  • Eletroencefalograma (EEG) — regista atividade elétrica cerebral; especialmente útil para caracterizar padrões de crise e diferenciar epilepsia.
  • Análise de líquido cefalorraquidiano (LCR) — por punção lombar; avalia infeção, inflamação, células anormais.
  • Testes específicos — conforme suspeita (vitaminas, aminoácidos, micotoxinas, tóxicos).

Realização do eletroencefalograma (EEG) é um exame que  regista a atividade elétrica cerebral; especialmente útil para caracterizar padrões de crise e diferenciar epilepsia. Ao contrário dos seres humanos não é frequetemente realizados pelo médico veterinário.

Figura 4 - Realização do eletroencefalograma (EEG) é um exame que  regista a atividade elétrica cerebral; especialmente útil para caracterizar padrões de crise e diferenciar epilepsia. Ao contrário dos seres humanos não é frequetemente realizados pelo médico veterinário.

Tratamento das convulsões: opções e estratégia

Crise aguda isolada (primeiro episódio)

Se for a primeira convulsão e não houver status epilepticus, o foco inicial é investigação de causa e monitorização. A medicação crónica não é habitualmente iniciada.

Epilepsia recorrente ou clusters

Quando o animal sofre múltiplas crises (ex.: mais de uma por mês, ou clusters), recomenda-se medicação anticonvulsivante de manutenção. Os fármacos de escolha variam em função da doença, espécie outras doenças existente. Muitos destes fármacos exige a monitorização de níveis séricos e da função função hepática de forma regular visto apresentarem efeitos tóxicos e acumulativos ao longo do tempo. 

Status epilepticus (emergência)

A crise que dura mais de 5 minutos ou múltiplas crises sem recuperação é uma emergência médica e o seu animal necessita tratamento de urgência. O objectivo principal é interromper a crise. Os tutores devem estar treinados para serem capazes de intervir rapidamente com medicação para controle da crise. Em contexto de hospital veterinário é feita a administração de medicação intravenosa e uma monitorização contínua. 

Tratamento da causa subjacente

Se identificada uma causa secundária, o tratamento específico é fundamental:

  • Tumor cerebral ? avaliação cirúrgica.
  • Infeção meníngea ? antibióticos/antivirais.
  • Hipoglicemia ? alimento/suplementação de glicose.
  • Doença hepática/renal ? gestão específica da doença.
  • Intoxicação ? descontaminação, antídoto (conforme caso).

 

O que fazer quando está perante um quadro de convusão com o seu animal de companhia.

Figura 5 - O que fazer quando está perante um quadro de convusão com o seu animal de companhia.

Acompanhamento a longo prazo e qualidade de vida

Cães e gatos com epilepsia controlada têm excelente qualidade de vida. Recomendações para otimizar o controlo:

  • Medicação regular — administrada no mesmo horário, todos os dias.
  • Monitorização analítica periódica — de 6 em 6 a 12 em 12 meses (ou conforme fármaco).
  • Evitar factores desencadeadores: stress ambiental, alterações bruscas de temperatura, falta de sono, alterações dietéticas.
  • Manutenção de peso e saúde geral — exercício moderado, alimentação equilibrada.
  • Registo contínuo de crises — ajuda a avaliar eficácia do tratamento.

O seu cão ou gato sofre de convulsões recorrentes? Agende avaliação especializada.

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FAQs — Convulsões em cães e gatos

1) Uma única convulsão significa que o meu cão/gato tem epilepsia?

Não. A epilepsia é o termo usado quando há múltiplas crises recorrentes sem causa secundária identificável. Uma crise isolada exige investigação, mas não é automaticamente epilepsia.

2) Qual é a duração normal de uma convulsão?

Tipicamente, 30 segundos a 2–3 minutos. Se durar mais de 5 minutos, é uma emergência (status epilepticus).

3) O meu cão/gato pode morrer durante uma convulsão?

O risco é muito baixo em crises simples. Contudo, status epilepticus prolongado (múltiplas crises sem recuperação) é grave e exige tratamento urgente. Risco aumentado em animais muito idosos ou frágeis.

4) Os medicamentos anticonvulsivantes têm muitos efeitos secundários?

A maioria dos animais tolera bem a medicação. Efeitos comuns incluem sedação leve, aumento de apetite e maior consumo de água. Raramente, podem afetar o fígado; por isso, a monitorização periódica é importante.

5) A medicação é para toda a vida?

Na maioria dos casos, sim. Suspender abruptamente pode precipitar crises. Em casos raros, após longos períodos sem convulsões, o veterinário pode considerar redução gradual — mas isto é raro e deve ser cuidadosamente discutido.

6) Quanto custa o diagnóstico completo?

Varia conforme a extensão da investigação. Análises básicas são relativamente acessíveis, as consulta e as análises rondam os 100 euros; imagiologia avançada (RM/TC) é mais cara, este sexames ronda os 300 a 600 euros em função de diversos parametros. Consulte os nossos Serviços Veterinários para orçamento.

7) Um gato com epilepsia pode viver normalmente?

Sim. Muitos gatos com epilepsia controlada têm qualidade de vida excelente — brincam, comem bem e interagem normalmente. A chave é medicação consistente e acompanhamento regular.

8) Como devo registar as crises?

Mantenha um registo simples com: data, hora, duração, padrão de movimentos (localizado vs generalizado), se houve perda de consciência, e quanto tempo demorou a recuperar. Isto ajuda muito na avaliação do tratamento. Tente gravar os episódios.

9) Devo deixar o animal fazer exercício normalmente?

Sim, exercício moderado é benéfico. Evite stress extremo, sobrecarga de calor, e falta de descanso — fatores que podem desencadear crises. Consulte o veterinário sobre o nível de atividade apropriado.